Sustentabilidade na suinocultura: do passivo ambiental à receita dentro da porteira

A suinocultura brasileira consolidou nas últimas décadas um dos sistemas produtivos mais eficientes do mundo. Mas há um ativo que ainda é amplamente subaproveitado: o ecossistema de resíduos gerado dentro da própria granja.

Uma unidade de terminação com 40 mil suínos tem potencial poluente equivalente ao sistema de tratamento de dejetos de uma cidade de 160 mil habitantes. Esse dado, frequentemente usado como argumento de pressão ambiental sobre o setor, pode ser lido de outra forma: como dimensionamento do volume de biomassa disponível para conversão energética e uso agronômico.

É nessa lógica que o Programa ASUMAS de Sustentabilidade — o PAS — estruturou três frentes técnicas de trabalho, desenvolvidas em parceria com Embrapa Suínos e Aves, Embrapa Agropecuária Oeste, Universidade Federal da Grande Dourados e Sebrae.

Biometano como vetor energético

O biogás produzido em biodigestores suínos apresenta concentração de metano entre 55% e 65%. Após purificação por membrana — tecnologia já disponível comercialmente —, o biometano resultante tem especificação técnica compatível com uso veicular, viabilizando a substituição de diesel em frotas de transporte de leitões e suínos terminados. Um projeto piloto em andamento no Mato Grosso do Sul prevê a conversão de dez caminhões de uma frota integradora regional para operação exclusiva a biometano, com o combustível produzido a partir do dejeto de uma única unidade produtora.

Digestato com finalidade agronômica

O digestato — fração sólida e líquida resultante do processo de biodigestão — já é utilizado nas propriedades como fertilizante orgânico. O que o PAS propõe é a otimização técnica dessa aplicação: protocolos de distribuição baseados em análise de solo, correlação com demanda nutricional das culturas e sistemas de produção com maior resposta produtiva. A difusão de tecnologia existente, produzida por Embrapa e universidades, ainda chega de forma fragmentada ao suinocultor — e o programa atua diretamente nessa lacuna.

Certificação e crédito de carbono

A terceira frente estrutura um sistema de rastreabilidade de toda a cadeia produtiva, com potencial de geração de selos de comercialização e certificados de energias renováveis. O mercado voluntário de carbono ainda apresenta volatilidade, mas a tendência regulatória aponta para precificação crescente das emissões evitadas — o que posiciona o produtor que adotar esses protocolos agora com vantagem competitiva relevante nos próximos anos.

Para o médico veterinário que atua na suinocultura, compreender esses três pilares deixou de ser diferencial e passou a ser requisito técnico. O produtor moderno não quer somente um profissional que domine sanidade e reprodução — quer alguém que enxergue a granja como sistema e saiba orientar decisões que impactam o resultado econômico da propriedade como um todo.

O ep #365 do SuinoCast aprofunda cada uma dessas frentes com quem está construindo esse caminho no campo.

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