Existe uma crença bastante difundida entre nutricionistas e técnicos de bovinos de corte de que ionóforos são intercambiáveis — que a escolha entre Monensina e Narasina é uma questão de preferência ou de disponibilidade. Essa leitura, além de incompleta, faz o produtor perder desempenho em exatamente os momentos em que o mercado favorável mais exige eficiência.
Os dois aditivos pertencem à mesma classe farmacológica, mas têm mecanismos de ação distintos no ambiente ruminal — e essa diferença é o que define quando cada um deve ser utilizado e por quê a combinação sequencial entrega resultados que nenhum dos dois consegue sozinho.
O que a Monensina faz que a Narasina não faz — e vice-versa
A Monensina é o ionóforo com maior base científica da história da nutrição animal. São aproximadamente 6.000 trabalhos publicados, inúmeras metanálises e décadas de uso em campo. Uma das suas características centrais é a modulação de consumo: a Monensina reduz a ingestão de matéria seca, o que gera ganho de eficiência alimentar — o animal produz mais com menos.
Esse efeito é altamente benéfico na fase de terminação, quando o animal já está em dieta de alta energia e o objetivo é converter o alimento em carcaça com o menor desperdício possível. Mas esse mesmo mecanismo se torna um limitante em dois cenários específicos: suplementação de pasto e fase de adaptação no confinamento. Nessas fases, o que se quer é o oposto — puxar consumo, não restringi-lo.
A Narasina, lançada no Brasil em 2015, foi desenvolvida exatamente para resolver esse problema. Por não modular consumo de matéria seca nem de suplemento, ela se encaixou perfeitamente nos produtos de baixo consumo — sal mineral, sal mineral adensado, proteico — onde a Monensina causava consumo errático e comprometia os resultados. Os estudos conduzidos na ESALQ e em outros centros de pesquisa mostraram ganho adicional de aproximadamente 100 gramas por dia nas águas e 44 gramas na seca, frente ao grupo controle, com resultados replicados em múltiplos trabalhos. Replicabilidade é o que transforma um resultado promissor em protocolo aplicável porteira adentro.
O protocolo sequencial que está mudando o confinamento
A evolução natural da ciência em torno da Narasina foi testar a molécula em dietas de alta energia — e os resultados abriram uma nova estratégia nutricional para o confinamento. O protocolo que vem sendo estudado e validado é simples na lógica, mas poderoso na entrega: Narasina na fase de adaptação e Monensina na fase de terminação.
Na adaptação, o animal está chegando ao confinamento com consumo ainda em construção. É o momento de máxima oportunidade para puxar ingestão rapidamente, evoluir o ganho de peso e preparar o rúmen para as dietas de alta energia que virão. A Narasina, sem modular consumo, faz exatamente isso — puxou mais ingestão, puxou mais ganho nos estudos conduzidos com 21, 42 e 50 dias de utilização.
Na terminação, com o animal já adaptado, a Monensina assume sua função central: modular consumo e elevar a eficiência de conversão alimentar. O animal ganha menos, mas gasta menos para ganhar — e em um cenário de confinamentos mais longos, com 140 a 150 dias, essa eficiência na fase final representa diferença real de custo e de resultado.
O que a ciência mostrou é que as duas moléculas não competem. Elas se encaixam em fases diferentes do processo produtivo, entregando ao produtor que quer ganho de peso na entrada e eficiência na saída exatamente o que cada etapa exige.
Dose, sustentabilidade e o que ainda vem por aí
Um ponto que diferencia a Narasina das demais moléculas da sua classe é a dose. Enquanto a Monensina requer ajuste significativo do pasto para o confinamento — saindo de 15 a 18 ppm no pasto para 28 a 33 ppm no confinamento — a Narasina mantém a mesma dose de 13 ppm nas duas condições. Isso simplifica a formulação e reduz margem de erro operacional.
Além disso, a Narasina é atualmente o único biológico melhorador de desempenho com claim em bula para redução de metano entérico. A dose de 13 ppm cobre tanto o range de desempenho quanto o range de mitigação de metano preconizado em bula — o que significa que o produtor que usa o protocolo correto não precisa escolher entre produtividade e sustentabilidade. Ele entrega os dois simultaneamente.
Para a bovinocultura leiteira e para ovinos, os estudos ainda estão em desenvolvimento. A bula atual é específica para bovinos de corte, mas as características da molécula — não limitar consumo, ser eficiente na produção de propionato e ter menor impacto sobre o pH ruminal — indicam potencial considerável para outras categorias.
O caminho percorrido pela Narasina em dez anos no Brasil — do pasto para o confinamento, da adaptação para a terminação, do desempenho para a sustentabilidade — é um exemplo do que acontece quando a ciência responde às perguntas que o campo faz.
Este artigo foi produzido com base no episódio #135 do Mais Rúmen Podcast, com o Me. Adriano Paiva, Consultor Técnico de Ruminantes da Elanco Animal Health, mediado pelo Dr. Diogo Costa. Episódio patrocinado por Elanco — Narasina. Ouça o episódio completo nas principais plataformas de áudio e vídeo.
