Mastigáveis para Pets: O Que São, Como Funcionam e Por Que o Brasil Lidera a Exportação Mundial

O mercado global de petiscos e mastigáveis para animais de companhia já movimenta mais de 55 bilhões de dólares por ano — com projeção de chegar a 70 bilhões até 2030. O Brasil figura entre os maiores exportadores do mundo nesse segmento, abastecendo mercados como Estados Unidos, Canadá, Austrália e União Europeia. Ainda assim, é um setor pouco discutido, cercado de indefinições regulatórias e com um potencial produtivo ainda longe de ser totalmente aproveitado.

O que é um produto mastigável?

Na definição regulatória brasileira, o produto mastigável é elaborado com ingredientes de origem animal e/ou vegetal, destinado à diversão ou agrado do animal, com valor nutricional desprezível. Já o alimento específico — categoria que inclui bifinhos e barrinhas — tem finalidade de agrado, prêmio ou recompensa, e pode trazer apelos nutricionais no rótulo.

O problema está na linha tênue entre as duas categorias. Por anos, critérios como formato e textura eram usados para classificar produtos: se quebrava, era mastigável; se dobrava, era bifinho. Nenhuma relação com composição ou valor nutricional real.

Essa indefinição gerou um verdadeiro limbo regulatório, com fábricas registradas em departamentos diferentes do Ministério da Agricultura produzindo produtos essencialmente iguais — sem clareza sobre qual legislação se aplicava a cada um.

Da raspa de couro ao vergalho: a evolução do setor

Os primeiros mastigáveis eram feitos exclusivamente de casco, chifre e raspa de couro — produtos rígidos, de lenta degradação e com valor nutricional próximo a zero. Com a chegada da refrigeração industrial e dos processos modernos de desidratação, o setor se transformou radicalmente.

Hoje, os mastigáveis incluem orelha bovina (91% de proteína), vergalho (94–95% de proteína), esôfago, bexiga, rúmen, omaso e produtos híbridos com frutas e legumes. O paradoxo é evidente: muitos desses produtos têm valor nutricional expressivo, mas a legislação ainda os classifica como mastigáveis — impedindo qualquer comunicação nutricional no rótulo.

A questão se torna ainda mais absurda quando comparada ao alimento específico: um bifinho com 15% de proteína pode ter apelo nutricional no rótulo. O vergalho com 95% não pode.

Segurança e requisitos para exportação

O Brasil exporta mastigáveis para os principais mercados globais, e cada destino tem seus próprios requisitos sanitários de tratamento térmico:

Estados Unidos: 80°C em toda a massa

Canadá: 85°C por 2 horas

União Europeia: 90°C em toda a massa

Austrália: 100°C + irradiação obrigatória

Além das temperaturas, países como Canadá e União Europeia exigem ausência de Salmonella em 5 amostras por lote e controle rigoroso de enterobactérias. A atividade de água abaixo de 0,6 é parâmetro de praxe na indústria para garantir estabilidade e segurança do produto — independente do destino.

A validação das estufas de tratamento térmico é outro ponto crítico. É necessário mapear os pontos mais frios e mais quentes de cada estufa, garantindo que toda a massa do produto atinja a temperatura exigida pelo país importador.

O que ainda trava o setor

Apesar do protagonismo brasileiro no mercado internacional, alguns gargalos regulatórios limitam o crescimento do setor.

O primeiro deles é a ausência de um NCM específico para mastigáveis. Hoje, esses produtos são exportados sob códigos genéricos que englobam desde rações completas até resíduos industriais — tornando impossível rastrear o volume real exportado, os países de destino e o valor gerado pelo setor.

O segundo é o trânsito de matéria-prima entre estados. Uma lei de 1950 restringe a movimentação de produtos de origem animal provenientes de estabelecimentos de inspeção municipal e estadual para fora de seus territórios. Pelo IBGE, 25% do abate bovino e cerca de 15% do suíno são realizados sob inspeção estadual ou municipal — um volume expressivo de matéria-prima com potencial para mastigáveis que muitas vezes se perde por falta de infraestrutura local ou impossibilidade de transporte.

Não há justificativa técnica ou sanitária para essa restrição no contexto dos mastigáveis. O país já foi livre de aftosa sem vacinação, e o trânsito de subprodutos para fins industriais não representa risco sanitário incompatível com os controles já existentes.

O futuro: mastigáveis funcionais

A próxima fronteira do setor são os mastigáveis funcionais — produtos elaborados com matérias-primas que oferecem benefícios comprovados à saúde animal.

Traqueia, glote e cartilagem de escápula, por exemplo, são fontes naturais de sulfato de condroitina e glucosamina — compostos amplamente utilizados no tratamento de artrose e problemas articulares em cães. Em vez de administrar suplementos em comprimido, seria possível oferecer ao animal um produto mastigável natural com a mesma finalidade terapêutica.

Para que isso aconteça, é necessário um trabalho conjunto entre indústria, academia e Ministério da Agricultura — com estudos que comprovem a biodisponibilidade dos compostos, as concentrações presentes em cada matéria-prima e os efeitos clínicos nos animais. É a interface entre mercado e ciência que vai definir o ritmo dessa evolução.

Conclusão

O mercado de mastigáveis é um exemplo concreto de economia circular aplicada à cadeia de proteína animal. Transformar subprodutos do abate — que representam até 45% do peso do animal — em produtos de alto valor agregado para o mercado pet é uma oportunidade que o Brasil já aproveita, mas ainda está longe de explorar em sua totalidade.

Com regulamentação mais clara, estatísticas precisas e avanços científicos sobre funcionalidade, o potencial de crescimento é imenso — tanto no mercado interno quanto na exportação.

Este artigo foi produzido com base no episódio #45 do Pet Food Podcast, com Ricardo Sousa Vasconcelos e Caetano Vaz dos Santos, presidente da AbraChews. Ouça o episódio completo no Spotify, YouTube e demais plataformas de streaming.